Hollywood: os anos da censura

 

 

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Jane Russell em "The Outlaw", (Wikicommons).

O cinema, de certa forma, ainda engatinhava no início da década de 20. Após a I Guerra Mundial, Hollywood tomou o lugar dos países europeus na dianteira da produção cinematográfica – e nunca mais sairia desta posição. Entretanto, acontece que naquela época, Hollywood andava com a imagem bem chamuscada perante o resto do país, o lugar era a imagem literal da "cidade do pecado". A toda hora pipocavam escândalos escabrosos envolvendo grandes estrelas de cinema. Além de depreciar a imagem dos atores – que já não eram vistos com bons olhos – isso enfurecia a turba de religiosos fanáticos, que não perdiam a oportunidade de praguejar contra a ‘nova arte’, já vista com bastante desconfiança.

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Poster do filme "A Free Soul", (Wikicommons).

Para reabilitar sua imagem, os grandes estúdios de cinema decidiram, então, que todas as produções deveriam passar por uma autocensura prévia, e em 1922 escolheram o respeitado pastor presbiteriano e à época diretor-geral dos Correios dos EUA, Will H. Hays, para comandar a presidência da Motion Picture Association of America (MPAA), onde ficou por 25 anos. Em 1924 todas as produções já passavam por seu crivo e, em 1930, as proibições da censura foram oficializadas no que ficou popularmente conhecido como "Hays Code" (Código Hays), que enumerava uma lista de pontos chamados de "Dont’s" (não) e "Be Carefuls" (seja cuidadoso). Entre as principais proibições de "Dont’s" estavam: nudez, tráfico ilegal de drogas, escravidão branca, miscigenação, ridicularização do clero e ofensa intencional a qualquer nação, raça ou credo. Já o "Be Carefuls", recomendava cuidado especial na forma de tratar os seguintes assuntos: uso da bandeira, armas de fogo e drogas, técnicas de cometer assassinato, brutalidade, crueldade com crianças e animais e prostituição, entre outros.

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Poster do filme "Cat on a Hot Tin Roof", (Wikicommons)

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Poster do filme Queen_Christina", (Wikicommons).

Contudo, embora o código tenha sido aprovado em 1930, a supervisão era fraca e ele não se tornou rigorosamente cumprido até julho de 1934. Antes desta data, o conteúdo dos filmes foi mais restringido por leis locais, negociações entre os estúdios de cinema e alguma discussão sobre a necessidade de aderir estritamente ao Código Hays, que foi muitas vezes ignorado pelos cineastas de Hollywood. O fato que é os prós e contras do código ainda eram discutidos nacionalmente. Somava-se a isso a burocracia imposta pelas divergências entre os grandes estúdios e as leis estaduais de censura. Sendo assim, o código foi praticamente ignorado na produção de filmes por quatro anos, desde o começo da era sonora. Como resultado, filmes do final dos anos 20 e começo dos anos 30 continham insinuações sexuais, miscigenação, profanação, uso ilegal de drogas, palavrões, prostituição, infidelidade, aborto, violência intensa e homossexualidade, dando origem a uma espécie de sub-gênero conhecido como "Pre-Code Hollywood" (Hollywood pré-código).

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Marlene Dietrich, (Wikicommons).

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Mae West, (Wikicommons).

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Joan Blondell (foto da esquerda) e Jean Harlow (foto da direita), (Wikicommons).

Alpinistas sociais protagonizaram clássicos como Serpentes de Luxo (Baby Face, 1933) e A Mulher Parisiense dos Cabelos de Fogo (Red-Headed Woman, 1932). Gangsteres em filmes como Inimigo Público (The Public Enemy, 1931); Scarface – A Vergonha de Uma Nação (Scarface, 1932) e Alma no Lado (Little Caesar, 1931), eram bastante glamourizados, quase retratados como heróis. Obviamente, a Grande Depressão teve uma enorme influência nos filmes pre-code, tanto financeira como artisticamente. Como foi observado por F. Scott Fitzgerald em 1931, "Ao fim de dois anos a Era do Jazz parece tão distante quanto nos dias antes da guerra". A quebra da Bolsa de Nova York em 1929 fora um evento catalisador, pelo que no começo da década de 1930 os conceitos de moral – e os excessos da década anterior – foram muito discutidos. O clima nos EUA não podia ser menos tenso, havia descrença e desilusão por toda parte, o pessimismo pairava sobre todas as cabeças. No âmbito cinematográfico, Hollywood nunca havia experimentado um grau de liberdade artística tão grande: não é à toa que havia o desafio de retratar temas ditos ‘sórdidos’, que depois seriam mantidos longe dos olhares do público por décadas.

 

Muitos astros e estrelas viram o nascimento de suas carreiras e o auge delas durante o período pre-code. Atores como Clark Gable, James Cagney, Edward G. Robinson, Warren William, e divas do calibre de Barbara Stanwyck, Norma Shearer, Mae West, Greta Garbo, Marlene Dietrich e Jean Harlow, foram provavelmente os que mais brilharam durante o Pre-Code Hollywood. Além dos já citados, filmes como Safe in Hell (1931); Almas Pecadoras (Laughing Sinners, 1931); Female (1933); A Divorciada (The Divorcee, 1930); Uma Alma Livre (A Free Soul, 1931), Rainha Christina (Queen Christina, 1933); Vias da Ruína (The Road to Ruin, 1934); Marrocos (Morocco, 1930), Assim Amam as Mulheres (Christopher Strong, 1933) e A Mulher Miraculosa (The Miracle Woman, 1931), eram extremamente provocativos, retratando temas ditos ‘proibidos’, como prostituição, triângulos amorosos, adultério, aborto, homossexualidade, suicídio e hipocrisia religiosa. O sexo e os problemas sociais eram os temas mais recorrentes dos filmes pre-code.

 

Infelizmente, a era do pre-code Hollywood durou pouco. Uma emenda ao código, aprovada em 1934, instituiu o Production Code Administration (PCA), exigindo que todos os filmes lançados em ou após primeiro de julho daquele ano devessem obter um certificado de aprovação antes de serem estreados. Por mais de trinta anos, a maioria dos filmes produzidos em Hollywood aderiram ao código – que não foi criado nem executado pelo governo federal, mas pelos próprios estúdios de cinema, que o adotaram integralmente. Também em 1934, Joseph Breen, um católico fervoroso, foi nomeado chefe do novo Código de Produção. Durante a administração de Breen – desde 1934 até sua aposentadoria em 1954 – Hollywood viveu o auge do Código Hays. O Breen Office era muito mais rígido a censurar filmes do que seu antecessor.

Como se não bastasse, Breen ainda tinha poderes ilimitados para censurar e alterar cenas, roteiros e muito mais. Muitos diretores e roteiristas de Hollywood se irritaram, todavia tiveram que se submeter às decisões dele. Um dos casos mais famosos da ação da censura foi justamente no filme Casablanca, de 1942. No filme de Michael Curtiz, Breen se opôs veementemente a que o roteiro refira de alguma forma que Rick (Humphrey Bogart) e Lisa (Ingrid Bergman) tenham dormido juntos antes em Paris. Até o final do filme teria sido descaradamente alterado conforme as exigências de Breen, que descartava um final feliz para o ‘amor adúltero’ dos dois, o que consequentemente originou a cena final – uma das mais famosas deste filme e da história do cinema. Até a atrevida personagem de desenho animado Betty Boop foi censurada e de sex-symbol passou a ser uma espécia de dona de casa.

No entanto, se a censura castrava a liberdade artística, em alguns cineastas estimulava a criatividade para driblá-la. Como por exemplo Alfred Hitchcock. No suspense Interlúdio (Notorious, 1946); o diretor inglês filmou uma inesquecível cena de beijo dentro da regra de apenas três segundos de beijo, mas os atores interrompiam os beijos e depois voltavam a se beijar, sucessivas vezes. A sequência inteira dura aproximadamente dois minutos e meio. Outros, no entanto, ousaram desafiar o Breen Office, como foi o caso do excêntrico Howard Hughes. Embora tenha sido filmado em 1941, o Código de Produção negou um certificado de aprovação a O Proscrito (The Outlaw, 1943) e o filme de Hughes não pôde ser exibido por mais dois anos. Sobre O Proscrito, Breen escreveu: "Em mais de dez anos de analista crítico de filmes, eu nunca vi nada tão inaceitável quanto as tomadas do busto da personagem Rio (Jane Russell)". Breen mandou cortar 37 closes dos seios da atriz. O bilionário Hughes, porém, recusou-se a modificar a obra e conseguiu estreá-la em 1943; como retaliação, Hughes fez uma das maiores campanhas publicitárias da história do cinema, focada justamente nos seios da atriz Jane Russell.

 

Com cada vez mais contestações, com a crescente projeção do cinema europeu e seus cineastas e com o advento da televisão no país, o código foi perdendo força, poder e credibilidade, entrando em declínio já nos anos 50. Filmes densos e de temáticas pesadas, como Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire, 1951); Juventude Transviada (Rebel Without a Case, 1955); Gata em Teto de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof, 1958) e De Repente, No Último Verão (Suddenly, Last Summer, 1959) foram responsáveis por levar às telas uma nova linguagem cinematográfica, abordando assuntos ‘espinhosos’ que há muito tempo não eram vistos em Hollywood. Aliado a isso, o bom desempenho dos cinemas francês e italiano a nível mundial chegou também em Hollywood. Filmes como o provocante E Deus Criou a Mulher (Et Dieu… Créa la Femme, 1956) provocavam frenesi nos Estados Unidos. A explosão da sex-symbol francesa Brigitte Bardot e o comportamento incendiário da sua personagem era uma espécie de prenúncio da revolução comportamental que irrompeu anos mais tarde.

 

Durante os anos 60, a aplicação tornou-se insustentável e o Código de Produção foi definitivamente abandonado em fins da década, quando já não significava mais nada. Oficialmente, a MPAA adotou o novo sistema de classificação por faixa etária (que perdura até hoje) em novembro de 1968. Curiosamente, aproximadamente um ano antes da adesão oficial, estreava Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas (Bonnie and Clyde, 1967); filme responsável por ‘inaugurar’ um novo jeito de fazer cinema em Hollywood – e de quebra glamourizar criminosos, uma das principais proibições do ultrapassado Código Hays.

 

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