Archive for Junho, 2013

Frederico Fullfraf cobre a morte de Pablo Neruda

Junho 14, 2013
Fotógrafo Brasileiro cobriu secretamente morte de Neruda [Frederico Füllgraf]

Fotógrafo brasileiro cobriu secretamente morte de Neruda

Por Frederico Füllgraf

A convite de Manuel Araya – dublê de chofer e segurança de Pablo Neruda, de 1972 até o dia da morte do poeta, ocorrida em 23 de setembro de 1973 – participei como documentarista e repórter credenciado da exumação dos despojos do Prêmio Nobel chileno, em Isla Negra, Chile, no início de abril passado. Com o título “Crônica de um assassinato presumido”, minha tentativa de iluminar os bastidores históricos e políticos dessa exumação é narrada nas páginas 108-113 da edição de nº 70 (maio 2013) da revista Brasileiros, que acaba de chegar às bancas.

Faltava apenas um dia para a remessa da matéria para São Paulo, quando, guiado no Chile por teimoso instinto farejador (dizem que é “mão de anjo”), deparei-me no Google com uma foto incomum de Neruda, batida no interior do apartamento da mal afamada Clínica Santa María, de Santiago do Chile. Prova de raro respeito por direitos autorais na internet, uma página da mais recôndita província de Maule, atribuía o crédito da foto a “Evandro Teixeira”; um nome de óbvia sonância e escrita portuguesa.

Telefonema do Pacífico para o sertão da Bahia

Confesso que Teixeira não reverberou imediatamente em minha lembrança, e decidi colocar-me em seu encalço, na internet e por outros meios. Nessa busca – e há que saber buscar no Google, com palavras-chave fora do padrão – cairam em minhas mãos cinco fotos diferentes do corpo de Pablo Neruda, batidas na referida clínica, e todas de Evandro Teixeira.

Alertei minha colega Candida Tedesco, coordenadora editorial da Brasileiros, em São Paulo, ao achado e, durante alguns dias, tentei encontrar Evandro Teixeira no Brasil: primeiro através do e-mail, mas também pelo celular; contatos amealhados ao ritmo de conta-gotas em vários endereços brasileiros. No final do terceiro dia, ligando de Concepción, às margens do Pacífico, eu o localizei em Canudos, interior da Bahia, locação de uma de suas mais famosas fotos antigas: “Sertão de Canudos”. A qualidade da ligação não estava boa, mas Evandro já havia lido meu e-mail e prometeu retornar três dias depois, de volta ao Rio de Janeiro.

Baiano de Irajuba, em 1957, Teixeira iniciara sua carreira como repórter fotográfico de O Diário da Noite e O Jornal (Diários Associados), no Rio de Janeiro. Em 1963, mudara-se para o Jornal do Brasil, para o qual, viajando aos quatro cantos do mundo, ao longo de 47 anos tornara-se um dos mais respeitados fotojornalistas internacionais. Tinha recebido vários prêmios e publicado seu livro Fotojornalismo (1983), que integra o acervo da Biblioteca do Centro de Artes Georges Pompidou, em Paris.

A partir do golpe militar de 1964, Teixeira documentara a repressão da ditadura no Brasil, consagrando-se como autor de fotos históricas, como a Passeata dos Cem Mil (1968) e a resistência de trabalhadores, estudantes e artistas contra os militares. Personagem de variadas exposições individuais nas principais capitais do mundo e em várias cidades do Brasil, Teixeira, na altura de seus 70 anos de idade, ainda é um dos grandes nomes da fotografia brasileira e mundial.

A cobertura de Evandro Teixeira do golpe de Pinochet no Chile

Em meu e-mail, eu lhe pedia uma entrevista gravada em vídeo para um documentário sobre e com Manuel Araya, inciado durante a exumação de Neruda em Isla Negra, e também algumas palavras para a reportagem recém-concluída para a Brasileiros, na qual eu obviamente pretendia incluir a estória de Teixeira e suas misteriosas fotos. O pessoal da revista reagiu extasiado à ideia, embora o retorno anunciado pelo fotógrafo ameaçasse estourar o prazo para o fechamento editorial da revista.

Fruto da minha pesquisa na internet sobre Teixeira, foi uma entrevista do fotógrafo concedida em 2012 a Paulo César Boni, da UEL-Universidade de Londrina, intitulada “A fotografia a serviço da luta contra a ditadura militar no Brasil”. Nela, pela primeira vez, narrava como conseguira aproximar-se de Pablo Neruda em setembro de 1973, como enviado especial do JB para cobrir o golpe de Pinochet no Chile.

Certa noite, conta o fotógrafo, poucos dias após o golpe de 11 de setembro de 1973, fora jantar no terraço do Hotel Carrera, onde estava hospedado – o mesmo hotel, de onde o cinegrafista alemão, Peter Hellmich, filmara oculta e magistralmente o bombardeio do Palácio da Moneda.

No restaurante fora-lhe apresentada uma senhora, por coincidência, esposa de um adido militar do Chile no Brasil. A senhora passava suas horas no hotel, enquanto o marido participava do golpe. “Mas ela era paulista, gente nossa”, comenta Teixeira, irônico. Ele precisava de fotos de gente importante e mencionou Pablo Neruda. Então, como se fosse enviada pela providência divina, a brasileira lhe confidenciou um segredo: ninguém conseguiria falar com Neruda, porque estava confinado em Isla Negra, mas como estava mal de saúde, seria trazido para o Hospital “São José”, em Santiago.

O nome estava errado, não se sabe se por engano da informante, ou por esquecimento de Teixeira. Fato é que a “gente [ou agente?] nossa” era bem relacionada, e deu seu cartão de visitas ao fotógrafio. como senha para o contato com o diretor da Clínica Santa Maria.

Teixeira fora à clínica, cujo diretor o recebera, confirmando que Neruda dera entrada, acompanhado de sua esposa, Matilde Urrutía. Com um truque, Teixeira apresentara-se como “amigo” de Neruda, pois o tinha fotografado no Brasil, ao lado de Jorge Amado e coisa e tal. “O médico respondeu que não confiava muito em nós, jornalistas, não”, lembra-se Teixeira, que exagerara na dose, já afirmando ser também amigo de Matilde, ao que o médico cedera e, abrindo uma portinhola, permitira que Teixeira visse a esposa de Neruda, que saudou, desejando melhoras ao poeta.

“Já ia por a mão na câmera, mas o médico não permitiu”, conta, mas não conta se também conseguira ver Neruda. Em seguida fora mandado embora pelo diretor, que lhe prometera enviar ao hotel o boletim médico do poeta, que seria emitido às 22h00. Teixeira não menciona a data, mas só podia ser o fatídico domingo, 23 de setembro de 1973. Contudo, o relógio marcara 22h e o médico não havia enviado o boletim. Quando Teixeira lhe ligara, cobrando o boletim, o médico o surpreendera com a notícia súbita morte de Neruda.

Mal bateram 6h da manhã do dia seguinte, suspenso o toque de recolher, Teixeira retornara à clínica, escondendo sua máquina Leica debaixo da camisa. Sua visita não fora anunciada e, corajosamente, o brasileiro infiltrara-se na clínica através de uma porta dos fundos. Quando alcançara o corredor do dia anterior, viu “Pablo Neruda jogado numa sala qualquer, e a Matilde ao seu lado” – e começou a fotografar. Em seguida, dirigira-se a Matilde, jogando verde, de que era o fotógrafo de Jorge Amado, e a esposa do poeta colhera maduro, deixando-o fotografar.

Com o truque inusitado, Teixeira passara o dia 24, todo, fotografando, inclusive durante a preparação do corpo de Neruda. “Começaram a arrumar o corpo, passar formol, aquelas coisas, todas – e eu fotografando. Terminaram o preparo e colocaram o corpo num caixão – e eu fotografando. Dali ele foi levado para sua casa, que ficava no alto de uma colina, e eu fotografando tudo”. Depois, ainda com a permissão de Matilde Urrutía, acompanhou a condução do corpo até a “Chascona”, toda destruída, onde ocorreu o velório. No dia seguinte, Teixeira acompanhou Neruda até seu primeiro túmulo no Cemitério Geral de Santiago, acompanhado de milhares de pessoas, como primeira manifestação de resistência pacífica à ditadura.

Fotografias desmentem atestato de óbito de Neruda

Durante alguns dias, a revista Brasileiros e eu, à distância, tentamos negociar com Teixeira a cessão, obviamente paga, das fotos, mas com resolução mais adequada para a impressão. O fotógrafo, ao que tudo indica, não cedeu ao pedido da revista e, com excessão da foto do velório de Neruda, Brasileiros teve que abrir mão dos importantes documentos históricos.

Por que as poucas fotos conhecidas de Evandro Teixeira são importantes?

Evandro afirmou que passou o dia 24/09/1973 fotografando sem parar, na clínica citada. Devem ser muitas fotos e jamais foram divulgadas. As que seguem em anexo, junto com a entrevista que fiz por escrito com Teixeira, são apenas alguns instantâneos da morte de Neruda.

O que chama atenção nestas fotos é o seguinte: o atestado de óbito emitido pela Clínica Santa María em 24/09/1973, afirma que a causa mortis de Neruda teria sido uma "caquexia" (= estado degenerativo geral, definhamento) que o teria reduzido a "40 Kg de peso". Não é o que afirma o motorista Manuel Araya, que o deixara poucas horas antes da sua morte, afirmando teimosamente que Neruda pesava "mais de 100 kg", e embora Evandro Teixeira o tenha fotografado de perfil e enfaixado, as fotos não reproduzem um Neruda definhado. Este detalhe poderia interessar o juiz Mario Carroza, em Santiago do Chile.
Breve entrevista minha com Teixeira, 28/04/2013

(sem correção de seus erros de digitação):
"FREDERICO, SEGUEM AS RESPOSTAS:

1) Apesar da resistência do médico, não conseguiu bater nenhuma foto de Neruda ainda vivo?

ESTE ACONTECIMENTO É UM DOS MAIS IMPORTANTES QUE FAZEM PARTE DE TODAS AS COBERTURAS QUE PRESENCIEI. ESTAVA NO CHILE, EM 1973, LOGO APÓS O GOLPE MILITAR.

OS JORNAIS BRASILEIROS ESTAVAM PROIBIDOS, PELA CENSURA, DE DAREM MANCHETE SOBRE À QUEDA DE ALLENDE. ENTRETANTO, ESTANDO EM SANTIAGO, SÓ PENSAVA EM ENCONTRAR O NERUDA. POIS, EU HAVIA ACOMPANHADO SEU ENCONTRO COM JORGE AMADO , NA BAHIA. E O NERUDA, DIANTE DAQUELE CENÁRIO, REPRESENTAVA TODO O IMPACTO DO PINOCHET. MAS INVESTIGANDO E TENTANDO LOCALIZÁ-LO, SOUBE DE SUA DOENÇA. FOI ENTÃO, QUE FUI ATRAVÉS DO HOSPITAL, QUE HAVIA ME SIDO INDICADO, E ME APRESENTEI AO DIRETOR USANDO O NOME DE UMA CONHECIDA DE UMA SENHORA , CASADA COM UM MILITAR CHILENO. A TENTATIVA FOI NEGADA, MAS CONSEGUI RECEBER OS BOLETINS MÉDICOS. E, INFELIZMENTE, RECEBI A NOTICIA DE QUE ESTAVA MORTO. EM UMA NOVA TENTATIVA, ENTREI POR UMA PORTA , QUE ESTAVBA SEM VIGILÂNCIA , E , POR SORTE, VI O CORPO DO NERUDA COM SUA ESPOSA, MATILDA. FOI UM CHOQUE, MAS SABIA DA IMPORTANCIA DAQUELE MOMENTO .

2) Lembra-se das pessoas que estavam com Neruda e de algum comentário na clínica sobre a causa mortis? Alguma dúvida?

ERA UM GRANDE RISCO E SABIA QUE A QUALQUER MOMENTO, PODERIAM ME PEGAR E TUDO ESTAVA PERDIDO. COM ISSO, EU NAO PODIA CHAMAR MUITA ATENÇÃO. ME APRESENTEI COMO FOTOGRAFO QUE HAVIA ACOMPANHANDO O ENCONTRO DELE COM O JORGE AMADO. NESTE MOMENTO, GANHEI A PERMISSÃO DA SRA. MATIILDA DE ACOMPANHAR O CORTEJO ATÉ O FUNERAL.

3) Você chegou poucas horas depois do desaparecimento do chofer Manuel Araya, enviado pelo médico atendente ou Matilde Urrutia a uma farmácia: ela chegou a comentar isso com você?

NÃO.

4) A clínica informou que Neruda pesava pouco mais de 40 Kg, de tão definhado (a tal caquexia), mas em suas fotos, apesar de perfil, vê-se Neruda rechonchudo como era: em que estado você o encontrou?

ACOMPANHEI O MOMENTO EM QUE SEU CORPO FOI ARRUMADO. MAS COMO DISSE, ERA UMA TENSÃO MUITO GRANDE. ALÉM DA EMOIÇÃO QUE TOMAVA CONTA DE MIM.

5) Sabendo que suas fotos são as únicas no mundo daqueles momentos, nunca lhe ocorreu entrar em contato com o juiz Mario Carroza, e oferecer-lhe as fotos como material de investigação?

MINHAS FOTOS, INFDEPENDENTE DO TEMA, ESTARÃO SEMPRE À DISPOSIÇÃO COMO UM MATERIAL IMPORTANTE DE UM REGISTRO DE UM MOMENTO. ESTE ACERVO CHEGOU A FAZER PARTE DE UM LIVRO E FOI CONHECIDO PELO MUNDO. ESSE É O MEU PAPEL.

6) O que sentiu e pensou estes anos, todos, sobre a morte de Neruda?
PENSEI O QUE PENSO ATE HOJE. FOI UM DOS MOMENTOS MAIS MARCANBRTES DA MINHA PROFISSÃO E DA MINHA VIDA. EU CHORAVA E FOTOGRAFAVA AO MESMO TEMPO.."

Pink Floyd PULSE

Junho 8, 2013

Don Mclean–American Pie

Junho 7, 2013

 

Don McLean’s American Pie with lyrics.

A long, long time ago…
I can still remember
How that music used to make me smile.
And I knew if I had my chance
That I could make those people dance
And, maybe, they’d be happy for a while.
But february made me shiver
With every paper I’d deliver.
Bad news on the doorstep;
I couldn’t take one more step.
I can’t remember if I cried
When I read about his widowed bride,
But something touched me deep inside
The day the music died.
So bye-bye, miss american pie.
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
And them good old boys were drinkin’ whiskey and rye
Singin’, "this’ll be the day that I die.
"this’ll be the day that I die."
Did you write the book of love,
And do you have faith in God above,
If the Bible tells you so?
Do you believe in rock ‘n roll,
Can music save your mortal soul,
And can you teach me how to dance real slow?
Well, I know that you’re in love with him
`cause I saw you dancin’ in the gym.
You both kicked off your shoes.
Man, I dig those rhythm and blues.
I was a lonely teenage broncin’ buck
With a pink carnation and a pickup truck,
But I knew I was out of luck
The day the music died.
I started singin’,
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
Them good old boys were drinkin’ whiskey and rye
And singin’, "this’ll be the day that I die.
"this’ll be the day that I die."
Now for ten years we’ve been on our own
And moss grows fat on a rollin’ stone,
But that’s not how it used to be.
When the jester sang for the king and queen,
In a coat he borrowed from james dean
And a voice that came from you and me,
Oh, and while the king was looking down,
The jester stole his thorny crown.
The courtroom was adjourned;
No verdict was returned.
And while lennon (lenin?) read a book of marx,
The quartet practiced in the park,
And we sang dirges in the dark
The day the music died.
We were singing,
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
Them good old boys were drinkin’ whiskey and rye
And singin’, "this’ll be the day that I die.
"this’ll be the day that I die."
Helter skelter in a summer swelter.
The birds flew off with a fallout shelter,
Eight miles high and falling fast.
It landed foul on the grass.
The players tried for a forward pass,
With the jester on the sidelines in a cast.
Now the half-time air was sweet perfume
While the sergeants played a marching tune.
We all got up to dance,
Oh, but we never got the chance!
`cause the players tried to take the field;
The marching band refused to yield.
Do you recall what was revealed
The day the music died?
We started singing,
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
Them good old boys were drinkin’ whiskey and rye
And singin’, "this’ll be the day that I die.
"this’ll be the day that I die."
Oh, and there we were all in one place,
A generation lost in space
With no time left to start again.
So come on: jack be nimble, jack be quick!
Jack flash sat on a candlestick
Cause fire is the devil’s only friend.
Oh, and as I watched him on the stage
My hands were clenched in fists of rage.
No angel born in hell
Could break that satan’s spell.
And as the flames climbed high into the night
To light the sacrificial rite,
I saw satan laughing with delight
The day the music died
He was singing,
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
Them good old boys were drinkin’ whiskey and rye
And singin’, "this’ll be the day that I die.
"this’ll be the day that I die."
I met a girl who sang the blues
And I asked her for some happy news,
But she just smiled and turned away.
I went down to the sacred store
Where I’d heard the music years before,
But the man there said the music wouldn’t play.
And in the streets: the children screamed,
The lovers cried, and the poets dreamed.
But not a word was spoken;
The church bells all were broken.
And the three men I admire most:
The father, son, and the holy ghost,
They caught the last train for the coast
The day the music died.
And they were singing,
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
And them good old boys were drinkin’ whiskey and rye
Singin’, "this’ll be the day that I die.
"this’ll be the day that I die."
They were singing,
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
Them good old boys were drinkin’ whiskey and rye
Singin’, "this?ll be the day that I die."

Art of Emilia Wilk

Junho 7, 2013

king Crimson

Junho 5, 2013

Ani DiFranco

Junho 5, 2013

A cidade vista pelas artes

Junho 3, 2013

A cidade vista pelas artes

 

Se Mário de Andrade e Xul Solar tiveram conhecimento um do outro não vem ao caso. O que importa é que os dois se complementam na arte que deixaram. Tanto que não é exagero, muito menos ousadia, dizer que os poemas de um serviriam de legenda para os quadros do outro. Ou que a pintura de Xul Solar teria inspirado as palavras de Mario de Andrade. Tire as suas próprias conclusões.

mario-de-andrade-e-xul-solar.jpg

As vanguardas latino-americanas tiveram como propósito primeiro construir uma identidade e perfil próprios para os países do novo mundo. Assim, os vanguardistas, no Brasil e na Argentina, manifestaram na arte uma nova forma de ver o país e a questão da
nacionalidade.

Estes foram os propósitos de Mário de Andrade e Xul Solar. O primeiro, brasileiro, se valeu da escrita literária e poética para eternizar o processo de modernização de São Paulo. O mesmo fez Xul Solar, argentino. Só em que em vez das letras, este último usou a tela, a tinta e o pincel para nos fazer ver as grandes cidades de um jeito que nossos olhos, habituados com cotidiano, nunca viram.

Mário de Andrade e a sua cidade de São Paulo
Mário de Andrade nasceu em São Paulo, em 1893. Foi professor, crítico, poeta, contista, romancista e músico. Formou-se pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde iria lecionar anos mais tardes.

Junto de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e outros
intelectuais da época, foi idealizador da Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no Teatro Municipal de São Paulo.

Sua carreira artística foi marcada por iniciativas em prol da valorização da cultura e arte nacional. Foi fundador da Sociedade de Etnografia e Folclore e passou por diversos cargos públicos, tendo sido diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo. Uma de suas características marcantes é a disposição que tinha em ajudar os escritores e outros intelectuais a se tornarem reconhecidos. Sua principal "afilhada" foi Anita Malfatti, com quem manteve grande amizade.

Mário de Andrade morreu em São Paulo, no ano de 1945, tendo reconhecimento por sua contribuição para ideias inovadoras.

O livro Paulicéia Desvairada é considerado o marco inicial da poesia modernista no Brasil e através do qual o poeta descreve poeticamente impressões sobre a cidade de São Paulo. Nessa obra, assim como em Losango Caqui, a cidade São Paulo é vista sempre em conflito pelo eu-lírico, que ora se sente maravilhado com os avanços decorrentes da industrialização e tecnologia, ora se sente amedrontado com essas questões. É o conflito entre o homem moderno e a cidade, tema muito corrente na Literatura a partir da Revolução Industrial.

As principais características dessas e de outras obras de Mário de Andrade são: o verso livre, as transgressões sintáticas, a colagem, a sequência ininterrupta de imagens, entrou outros traços próprios da poesia modernista.

Os versos abaixo transcritos são fragmentos do poema XVII, do livro Losango Cáqui.

E marcho tempestuoso noturno.
Minha alma cidade das greves sangrentas,
Inferno fogo INFERNO em meu peito,
Insolências blasfêmias bocagens na língua.
Meus olhos navalhando a vida detestada.
A vista renasce na manhã bonita
Paulicéia lá em baixo epiderme áspera
Ambarizada pelo sol vigoroso,
Com o sangue do trabalho correndo
[nas veias das ruas]…
Fumaça bandeirinha
Torres
Cheiros
Barulhos
E fábricas…
Naquela casa mora,
Mora, ponhamos: Guaraciaba…
A dos cabelos fogaréu!….
Os bondes meus amigos íntimos
Que diariamente me acompanham pro trabalho…
Minha casa…
Tudo caiado de novo!
É tão grande a manhã!
E tão bom respirar!
E tão gostoso gostar da vida!
A própria dor é uma felicidade!

Na primeira estrofe, o eu-lírico se vê como a cidade “minha alma cidade”e a repudia, lançando um olhar pessimista, vendo apenas as greves, que ele considera sangrentas, isto é, capazes de causar destruição. Seu olhar é pessimista, pois diz “meus olhos navalhando a vida detestada”, ou seja, seu olhar destruindo a vida que ele tanto odeia.

Entretanto, na estrofe seguinte, através do amanhecer, é como se o novo dia trouxesse uma nova forma de ver a cidade “a vista renasce na manhã bonita”, mas, mesmo com o dia bonito, os defeitos da cidade continuam ali “com o sangue do trabalho / correndo nas veias das ruas”. Aqui, é como se o eu-lírico estivesse observando os trabalhadores que mais uma vez seguem caminho em direção ao trabalho, que, muitas vezes, é sua única razão de existir, dedicando-se apenas ao trabalho.

Na estrofe seguinte, há uma descrição da cidade: “fumaça bandeirinha / Torres / Cheiros / Barulhos / E fábricas…”. A cidade resume-se nessas poucas palavras. As torres e as fábricas representam a industrialização e a poluição que surge a partir disso pode ser vista na fumaça, nos cheiros e nos barulhos provocados pelo trabalho industrial.

Quando refere-se às casas, o eu-lírico revela dúvidas, pois não sabe quem mora onde “naquela casa mora / mora, suponhamos: Guaraciaba”. Esse nome, Guaraciaba, se refere ao cabelo loiro, como em seguida é descrito “a dos cabelos fogaréu”. Na mesma estrofe, ou eu-lírico se refere aos bondes, como seus amigos íntimos, pois através deles que ele chega ao seu trabalho. Aqui, é possível encontrar a ironia, pois ao longo do poema, ou eu-lírico mantem uma postura pessimista diante do trabalho e, aqui, refere-se aos meios de condução como amigos, que lhe fazem companhia em caminho para o trabalho. O uso de reticências evidencia a ironia, pois é um recurso utilizado para expressar insegurança, imprecisão.

Na última estrofe, mais uma vez a presença da ironia “minha casa… / tudo caiado de novo!”. Caiado significa que sua casa foi pintada de branco, mas não com tinta e sim com cal, material mais barato e muito utilizado nas periferias da cidade. No decorrer da estrofe o eu-lírico continua ironizando sua condição de morador da cidade “é tão bom respirar!”, mas nos versos anteriores citou o problema das fumaças e do cheiro, ar típico das grandes cidades e que é desagradável. E, para finalizar “a própria dor é uma felicidade!” é isso que lhe resta, seguir vivendo na cidade e mesmo que isso lhe doa, é preciso se conformar e encontrar nela algum motivo e razão de viver.

Xul Solar e a sua cidade de Buenos Aires
O nome completo de Xul Solar é Oscar Agustín Alejandro Shulz Solar. Pintor e poeta que nasceu em Buenos Aires, em 1887. Passou sua infância na capital argentina, onde estudou o primário e o secundário, em diferentes colégios. Seu interesse por Literatura, Música e Pintura, surgiu na adolescência e, aos vinte e dois anos, começou a escrever poesia.

Cursou por dois anos a faculdade de Arquitetura na Universidade de Buenos Aires e acumulou empregos públicos, que lhe permitiram aquisição de recursos para viajar para a
Europa. Em 1912 foi para Londres, onde pretendia ficar apenas um mês. A viagem, entretanto, se estendeu para o restante da Europa, lá ele ficou por 12 anos. Sua primeira exposição foi entre os anos de 1919 e 1920, em Milão. No ano de 1924, retornou a Buenos Aires e passou fazer parte da revista Martin Fierro, representante da vanguarda argentina.

Nessa época manteve grande amizade com Jorge Luis Borges, para quem ilustrou diversos poemas. Seu trabalho é marcado pela estrita relação entre poesia e pintura. Os trabalhos de Xul Solar são divididos pela aproximação entre texto e obra, fato que delimita suas obras em quatro fases.

Na primeira, a marca principal é a criação de legendas para suas pinturas. Suas pinturas eram encaixadas em cartões e nas extremidades eram postas os títulos e assinaturas, principais
influentes na fruição da obra. A segunda fase é marcada pela pintura verbal, na qual a escritura fazia parte do centro da obra, como se o texto fosse a personagem da narrativa criada pela pintura. Já a terceira fase, a linguagem cria vida, tornando o semântico em plástico. E, por fim, a quarta e última fase é um resgate das fases anteriores, reunido todas essas características.

A temática de sua obra é a criação da identidade latino-americana, sendo o primeiro pintor a incluir o Brasil no cenário continental dominado por países espano hablantes.
Mais especificamente sobre Buenos Aires, suas obras representam o caos e a confusão que é a cidade grande e os problemas da industrialização das grandes cidades, como é possível perceber nos dois quadros interpretados abaixo.

ciudad-lagui-xul-solar.jpg

Intitulado Ciudad Lagui, o quadro permite identificar a cidade grande, muitos prédios altos, semelhantes às torres. Os prédios de onde saem fumaças podem ser interpretados como as fábricas industriais. Nos caminhos homens caminhado são vistos, alguns com um tipo de sacola nas costas e outros como se apoiados em bengalas.

As cores do sol, imponente, iluminando a cidade colorindo-a em tons de vermelho, laranja e amarelo. O sol aparece como componente do cenário, não sendo possível delimitar seu
corpo, que parece estar misturado à estrutura do prédio, como se um estivesse dentro do outro. O fundo preto lembra a cor do petróleo, dando uma impressão mais sóbria à composição do
quadro.

No primeiro plano do quadro tem o verde do gramado e três grandes flores cor de fogo. É como se a natureza estivesse distante da cidade e alguns dos homens caminhassem em sua direção natureza, numa tentativa de fugir de saltar pela tela.

As escadas espalhadas por toda a pintura parecem levar a lugar nenhum e podem representar a tentativa de fuga do home. Dentro do sol tem uma delas apontando para o fim do quadro, podendo guiar para o além, para o espaço.

A noção da grandeza da cidade é maior no quadro seguinte:

ciudad-y-abismos-xul-solar.jpg

Nesse quadro, Ciudad y Abismos, já não há mais a presença da natureza e as cores escuras dão um aspecto sombrio para a pintura. Os prédios, com suas inúmeras janelas, parecem tomar conta de tudo. As pessoas caminham sem direção e sem ter para onde ir, como se estivessem perdidas.

A estrutura redonda dos prédios dá a impressão de que todos estão conectados e é impossível dizer onde começam ou acabam, como se juntos constituíssem grandes partes de um todo. Essa ligação entre os prédios está mais bem representada nas pontes que ligam uns aos outros.

Outra questão a ser observada é o tamanho dos prédios em relação aos homens, que parecem formigas andando entre essas grandes construções. A escuridão toma conta da cidade, mesmo com a presença das lâmpadas, que estão apagadas. O fato das lâmpadas estarem apagadas pode representar uma ironia com relação à tecnologia. A luz elétrica é uma das maiores conquistas e em uma cidade grande como a retratada, o mínimo que se espera é uma boa iluminação.

O diálogo entre as artes
Nas interpretações, tanto a respeito do poema de Mário de Andrade quanto a respeito dos dois quadros de Xul Solar, a cidade é vista como dominadora do homem. A constatação do
rápido desenvolvimento industrial está presente nas obras dos dois artistas. Como recurso, Mário de Andrade utiliza a ironia e Xul Solar expõe o homem como miniatura diante dos
grandes prédios. Nos dois artistas há a presença de torres, fumaça e fábricas.

Dessa forma, sem uma referência sobre a biografia dos dois autores, seria possível dizer que os dois estão expondo suas visões sobre a mesma cidade. E essa é uma marca muito
constante na modernização: as grandes cidades são, praticamente, todas iguais. São compostas por prédios, fábricas, indústrias. Os trabalhadores tão essenciais para as metrópoles estão vivendo e trabalhando ali, entretanto, vivem perdidos, como se estivessem sendo engolidos pela grandeza das obras que compõem a cidade.

Essas semelhanças que possibilitam o diálogo entre os dois artistas se explicam pelo fato de que a Arte se inspira na vida, que independente do lugar onde o artista está vivendo é
muito parecida, principalmente nas sociedades modernas.

As artes formam um grande tapete, onde cada Arte está entrelaçada, formando assim um grande painel através do
qual é possível visualizar, com outros olhos, a vida e a sociedade da qual fazemos parte.

A Irmandade Pré-Rafaelita – a arte pela arte

Junho 1, 2013

Na Inglaterra de 1848, um grupo de jovens artistas forma uma irmandade chamada “Os Pré-Rafaelitas”. Um importante movimento artístico que mudou os rumos da estética da arte, em uma época que os artistas tinham voz, coragem e, sobretudo, ideal. Estes artistas eram jovens destemidos que lutaram pelo que acreditavam ser a forma ideal de se fazer arte. A deles.

 

Irmandade Pre-Rafaelita
Ophelia

Na Inglaterra de 1848, um grupo de jovens artistas forma uma irmandade chamada “Os Pré-Rafaelitas”. Esses jovens são Dante Gabriel Rossetti, William Holman Hunt e John Everett Millais. Uma irmandade considerada irreverente, transgressora, pois rompe com os princípios estéticos da pintura aprendida nas Academias de Arte. Pregam a “a arte pela arte” – uma arte sem interferência acadêmica, uma arte em seu estado bruto.

Considerado uma espécie de reforma artística, o movimento pré-rafaelita intenciona romper com a rigidez das técnicas acadêmicas e mecânicas, a fim de libertar o artista para produzir de maneira mais autêntica. A irmandade é uma reação e uma provocação contra a arte padrão do academicismo na Inglaterra.

Acabam por tornar-se um grupo que partilha características, obviamente. Mesmo rompendo com o academicismo, encontram uma identidade que vai além de cada um deles. Essa identidade é facilmente reconhecida – por exemplo, nas cores esmaltadas e luminosas usadas em seus quadros, um claro rompimento da convenção dos tons suaves que eram praticados até então. Não utilizavam as técnicas de sombreamento e profundidade, também – como faziam os clássicos – pois achavam que isso relegava os elementos periféricos da pintura para segundo plano. Também ignoravam as leis da perspectiva – tudo princípios consagrados e inquestionáveis para as escolas académicas.

Os pré-rafaelitas não acreditavam na eficácia da técnica, mas sim na sensibilidade imprescindível para produzir suas obras. Pregam uma estética mais pura, pois não sofre interferência destes filtros pré-estabelecidos da Academia. Queriam resgatar a pureza e a honestidade que consideravam existir na arte anterior a Rafael (1483-1520) – um artista que muito influenciou a Academia Inglesa e, por isso, muito criticado pelos pré-rafaelitas. Acreditavam que o excesso de rigor das técnicas ensinadas na Academia conduzia os pintores para uma artificialidade ao retratar a natureza e a “obra de Deus”.

Irmandade Pre-Rafaelita
Die Geliebte

A irmandade abrigava todos os artistas que de alguma forma partilhavam este ideal de romper com o academicismo imperativo. Acreditavam, principalmente, na liberdade de expressão artística – o que achavam não ser possível dentro das Academias. Pregavam um diálogo entre vertentes artísticas como a literatura e a pintura, por exemplo. Um dos mais talentosos pré-rafaelitas, Dante Gabriel Rossetti, também era poeta e divulgava em alguns periódicos da época as teorias do grupo. A irmandade então começou a dedicar seus trabalhos a retratar personagens da literatura, poesia e mitologia, como verificamos nos belíssimos quadros “Proserpine” (1874), de Dante Gabriel Rossetti, e “Ophelia” (1852), de Everett Millais, baseado na heroína da famosa obra de Shakespeare, Hamlet.

Suas mais famosas obras são de personagens da literatura e da mitologia. Ao contrário da pintura de gênero, como os interiores e paisagens, à qual os pré-rafaelitas tinham aversão, eles propunham uma arte que consideravam ser mais sensível: era idealizada pelo artista, e não simplesmente um retrato de algo exterior.

Eles foram severamente criticados por pessoas influentes, como o novelista Charles Dickens, que descreveu com desdém a forma como lamentavelmente romperam com as regras do academicismo. Certamente, a crítica e o público os receberam como anarquistas e indisciplinados. No entanto, a irmandade também conseguiu fortes patronos como o crítico John Ruskin – que defendia outros artistas que romperam com as regras acadêmicas, como é o caso do famoso pintor inglês William Turner.

Irmandade Pre-Rafaelita
The Lady of Shallot

Os pré-rafaelitas, com sua filosofia, abalaram o cenário artístico de Londres. Mas a Irmandade
rompeu-se no fim de 1854. A esta época todos os membros já desenvolviam uma obra individual, mas jamais deixaram de aplicar as características pré-rafaelitas em seus quadros. A famosa irmandade deixou seu legado para uma nova geração de pintores como John William Waterhouse que, com uma de suas mais famosas pinturas – “The Lady of Shallot” (1888), retirada de um poema de Lord Alfred Tennyson – homenageia a estética pré-rafaelita com grande maestria.
Irmandade Pre-Rafaelita
Ophelia