ESCRITOR REVELA LADO OBSCURO DO “PARAÍSO” ESCANDINAVO

Marcel Oosterwijk / Flickr

"The best of Swedish family life"

“The best of Swedish family life”

Um escritor britânico fez estalar a polémica ao questionar publicamente uma ideia popular: a de que a Escandinávia é o melhor lugar do mundo para se viver.

Intitulado Terras Escuras: a Triste Verdade por trás do Mito Escandinavo, um artigo de Michael Booth, publicado na edição impressa do jornal The Guardian, critica duramente a região, que ostenta índices invejáveis de saúde e educação.

O assunto também é tema do último livro do autor, para quem a Escandinávia não é “o paraíso que parece”.

“Queria fazer os leitores do jornal acordar do coma escandinavo”, afirmou Booth à BBC.

Booth vive na Dinamarca e é casado com uma dinamarquesa. Apesar de assumir que gosta de morar ali, destaca que “nem tudo é cor de rosa”.

No artigo, ele discorre sobre os problemas da Finlândia com armas e álcool, da viragem à direita da tradicionalmente social-democrata sociedade na Noruega, do desemprego juvenil na Suécia e dos problemas de saúde na Dinamarca.

“Nos últimos dez anos, o jornal The Guardian só publicou artigos positivos sobre essa estranha utopia que é a Escandinávia. Por isso, fui deliberadamente provocador e mostrei apenas parte da verdade. Claro que fui um pouco selvagem e brutal, mas acredito que tinha de fazê-lo”, assegura.

A “brutalidade” de Booth deu resultado. O artigo recebeu mais de 1 milhão de visualizações, foi comentado por mais de 3 mil pessoas e compartilhado 7 mil vezes.

Sarah G / Flickr

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Suicídio e depressão

Um dos mitos associados à Escandinávia diz respeito à alta concentração de suicídios na região.

Na verdade, porém, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, nenhum dos países escandinavos figura entre os dez com maior taxa de suicídios no mundo.

Booth lembra, no entanto, que são os escandinavos que consomem mais antidepressivos, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O britânico também revela outras verdades incómodas, como por exemplo, que as escolas dinamarquesas não têm grandes resultados (feito que se atribui aos resultados do teste Pisa, sigla em inglês do Programa para Avaliação Internacional de Estudantes);  que a maior parte das mortes de homens na Finlândia está relacionada com o álcool, como indica o Sistema de Estatística da Finlândia; ou que a Suécia é um dos dez maiores exportadores de armas do mundo, segundo o Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo.

Além disso, Booth lembra que, entre todos os países escandinavos, o mais rico, a Noruega, que advoga por um ambiente mais limpo, continua a ser um dos principais exportadores de petróleo do mundo.

“Há uns dez anos, as pessoas no Reino Unido sonhavam em ter uma casa em França, Espanha ou Itália. Mas, então, chegou a crise, e as pessoas olharam para a Escandinávia porque viram ali uma espécie de retorno a certos valores básicos: a segurança, a confiança e uma sociedade um pouco mais simples e funcional, tanto estetica quanto estruturalmente. Há uma menor diferença entre ricos e pobres, há um maior sentido de comunidade, uma maior coesão social”, acrescenta Booth.

“Mas a verdade é que provavelmente nem os britânicos nem os americanos iriam querer viver tanto tempo aqui se soubessem como realmente é”, acrescenta o autor, que afirma que gosta de viver na Dinamarca, mas reconhece que se acostumou “a uma série de dificuldades”.

Uma delas é óbvia, mas não menos importante: o clima.

“Isso é o mais complicado”, assegura Óscar, um venezuelano que há mais de dez anos mora na Noruega.

“A diferença entre o verão e o inverno é enorme”, acrescenta Montserrat, uma espanhola que vive em Copenhaga há sete anos. “No inverno, todo o mundo sai de cara fechada e ninguém olha para as outras pessoas, mas no verão todo o mundo é amigo de todo o mundo”.

Simo Ortamo / Flickr

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Segregação

O espanhol Andoni, de uma pequena aldeia perto de Sevilha, é outro estrangeiro que mora na Escandinávia.

Quando a crise atingiu em cheio a Espanha, arrumou as malas e rumou com a sua família para Gotemburgo, na Suécia.

Segundo ele, pesaram na sua decisão a saúde e a educação pública de qualidade.

“O Estado ajuda-te com tudo, e a ideia é que os dois pais possam trabalhar, por isso existe esse incentivo”.

Os materiais escolares, a merenda e a creche são subsidiados. Apesar disso, Andoni ficou surpreendido ao descobrir que, em alguns colégios, a segregação era assustadora.

“No primeiro colégio em que os meus filhos estudavam, não havia nenhum filho de suecos, ainda que o bairro não fosse propriamente exclusivo de imigrantes”, assegura Andoni, que também afirma que antes de chegar tinha a ideia de que a sociedade sueca era mais multicultural.

A xenofobia também foi um dos temas abordados pelo artigo de Booth para o Guardian.

“Houve pessoas que me perguntaram pelo Twitter como eu me atrevia a chamar racistas aos noruegueses, e a verdade é que não fiz isso, só referi o avanço de um partido claramente islamofóbico nas últimas eleições”, afirma Booth.

O partido em questão é o Fremskrittpartiet, que forma parte da coligação que governa o país, com o partido conservador Hoyre (“direita”, em norueguês).

O partido acolheu durante muitos anos nas suas fileiras o norueguês Anders Breivijk, que matou 70 pessoas no verão de 2011 e deixou o país em estado de choque.

“Nunca disse que os noruegueses eram racistas, mas sim que há certas forças políticas, como o Fremskrittpartiet, cujos líderes, em algumas ocasiões, fizeram declarações xenofóbicas e agora são forças políticas com muito poder”, afirma Booth.

Por outro lado, os países nórdicos são um dos destinos mais tradicionais de refugiados, mas não são poucos os problemas de integração para quem vem de fora.

“O imigrante precisa de mostrar que está disposto a fazer um verdadeiro esforço para se integrar”, afirma Montserrat, que fala dinamarquês fluentemente e é casada com um nativo.

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Reações

As reações ao artigo de Booth foram tão acaloradas quanto as suas objecções aos problemas da região.

Dois dias depois da sua publicação, o Guardian veiculou outro artigo dando voz à opinião de personalidades escandinavas.

O dinamarquês Adam Price, criador de Borgen, uma famosa série televisiva, classificou o texto de Booth como “divertido”, ainda que afirmando que a sociedade dinamarquesa é muito mais homogénea do que o autor assegura.

Por seu lado, o ministro finlandês para a Europa, Erkki Sakari Tuomioja, disse ser difícil levar o autor a sério, “considerando que vem de um país com um sistema de canalização que data da época vitoriana”.

Já os islandeses reclamaram de ter sido ignorados pelo artigo, uma vez que o autor afirmou que existem “poucos islandeses”.

“Os noruegueses levaram o artigo a demasiado a sério. Não estão acostumados à crítica nem a ser etiquetados como vilões, mas realmente ganham muito dinheiro com petróleo e todos sabemos que os combustíveis fósseis não são propriamente benéficos para o meio ambiente”, acrescenta Booth.

“Muita gente telefonou-me a dizer que o Reino Unido não é melhor. Mas eu não abordei isso. Não criei uma competição entre países”, afirmou o autor.

Os suecos foram um pouco além e viram tintas políticas no ataque. Lars Trägaardh, professor de história da Universidade Sköndal, em Estocolmo, disse que o artigo de Booth ia na mesma linha das declarações de Eisenhower, nas quais o ex-presidente americano criticava a “filosofia socialista” e a “falta de ambição” da sociedade sueca.

Trägaardh diz que “a coesão social não é um prato fácil de digerir para todos”, apesar de reconhecer os desafios que a globalização e a migração apresentam.

“O meu artigo queria deixar claro que não há nenhum lugar perfeito. A Escandinávia é genial e ninguém aqui a está a menosprezr. Repare, o meu chama-se A gente quase perfeita, e é realmente isso que eu penso, que não são absolutamente perfeitos, mas estão próximos disso”, conclui.

Mundus Gregorius / Flickr

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